Benefícios do aleitamento materno ou riscos do aleitamento artificial?

Uma das decisões que qualquer futura mamãe terá que tomar, de preferência antes mesmo de dar à luz, será como vai alimentar o seu bebê.

 

Muitas mulheres pensam que não tem muita importância e tomam a decisão sem antes se informar dos dois tipos de alimentação de um recém-nascido: leite materno ou leite artificial.

 

Em temas de maternidade, não devemos nos deixar influenciar por comentários ou experiências de outras mulheres. Cada mulher é um mundo e cada circunstância é única.

 

Como sempre digo: ouvidos surdos para “opinólogos/as” e atenta à sua intuição e seu instinto. Complementado, logicamente, com muita informação veraz e contrastada.

 

Está claro que o recém-nascido só poderá tomar um tipo de alimento durante os 6 primeiros meses de vida: LEITE. Algumas vezes (poucas, em realidade) não podemos eleger se daremos leite natural ou artificial, mas normalmente sim.

 

E é aí onde há um claro debate.

 

Se diz que o acesso a uma alimentação natural com leite materno é um direito do neonato e que não deveríamos negar-lhe tal direito.

Por outro lado, se aceita que o tipo de alimentação que se proporcionará ao recém-nascido é uma opção que lhe cabe à mãe decidir.

 

Seja qual seja a decisão que se tome sobre a alimentação do nosso recém estreado filho, não cabem dúvidas nem discussões sobre a superioridade do leite humano para crias humanas.

 

Então, a decisão deve ser consciente desse fato. Estamos falando de algo que está suficientemente estudado e não há lugar a comparações.

 

E aqui não vale aquela típica frase: eu criei os meus filhos com leite artificial e estão todos bem. Bem vão estar, está claro. Não estamos falando de dar veneno. Mas o leite artificial está composto por leite de outra espécie (neste caso, vaca) e, ainda que está adaptado e processado para ser digerível pelo sistema digestivo do bebê, nos dias de hoje ainda não se conseguiu que não desse os problemas que costuma dar.

 

Sim! O leite artificial dá problemas. Que não te enganem! Não é que o leite materno tenha benefícios. O leite materno é o natural, assim que os efeitos que produz são os normais.

 

Então, em vez de benefícios do leite materno devemos falar dos riscos do leite artificial, não é mesmo?

 

E aqui é onde muitas mamães que optaram por esse tipo de alimentação para os seus filhos se ofendem. Não é a minha intenção, de jeito nenhum. Mas quero te informar corretamente e sem maquiar as palavras para que a decisão seja tomada conscientemente.  

 

Cada uma temos os nossos motivos para eleger um ou outro tipo de aleitamento e devemos sempre, sempre respeitar essa decisão.

 

Se no seu caso não há outra opção mais que dar leite artificial, pense: que maravilha que nos dias de hoje temos essa alternativa para poder alimentar nossos bebês, não acha?

 

Antes da revolução industrial, quando não se podia dar o peito, não havia mais opção que diluir o leite de vaca com água. Isso levou a muitos bebês à desnutrição e a problemas renais. Então, é maravilhoso que exista o leite artificial, para estes casos.

 

Mas, atenta! Está documentado que menos de um 2% das mulheres sofrem de uma HIPOGALACTIA REAL: incapacidade de produzir leite suficiente para alimentar o bebê. Muitas vezes, o problema está num manejo inadequado do aleitamento materno ou na percepção equivocada da própria mãe que crê não ter suficiente leite (muitas vezes influenciada por terceiros).

 

Se informe muito. Leia muito. Procure profissionais que estejam ao dia da evidencia científica. Não se conforme com conselhos alheios e não se fie de qualquer profissional. Muitos não se reciclam.

 

E QUAIS SÃO, ENTÃO, OS RISCOS DO ALEITAMENTO ARTIFICIAL?

 

Para a criança:

  • Asma:

O risco é 50% maior nos alimentados com fórmula.

Fontes:

Dell S, To T. Breastfeeding and Asthma in Young Children. Arch Pediatr Adolesc Med 155: 1261-1265, 2001.

-Oddy WH, Peat JK, de Klerk NH. Materna asthma, infant feeding, and the risk for asthma in childhood. J. Allergy Clin Immunol. 110: 65-67, 2002.

 

  • Alergias:

Risco aumentado de alergias alimentarias e pele atópica.

Fontes:

Saarinen UM, Kajosarri M. Breastfeeding as a prophylactic against atopic disease: Prospective follow-up study until 17 years old. Lancet 346: 1065-1069, 1995.

-Kerkhof M, Koopman LP, van Strien RT, et al. Risk factors for atopic dermatitis in infants at high risk of allergy: The PIAMA study. Clin Exp Allergy 33: 1336- 1341, 2003.

 

  • Desenvolvimento cognitivo reduzido:

 Qualificações mais baixas nas provas de função intelectual geral, capacidade verbal, e habilidades visuais, espaciais e motoras, que aqueles/as que foram amamentados/as. Efeitos tanto a curto como a longo prazo na vida do indivíduo.

Fontes:

Smith MM, Durkin M, Hinton VJ, Bellinger D, Kuhn L. Influence of breastfeeding on cognitive outcomes at age 6-8 year follow-up of very low-birth weight infants. Am J Epidemiol 158:1075-1082, 2003.

-Richards M, Hardy R, Wadsworth ME. Long-tern effects of breast-feeding in a national cohort: educational attainment and midlife cognition function. Publ Health Nutr 5: 631-635, 2002.

 

  • Doença respiratória aguda:

 Pneumonias, bronquites e todo tipo de doenças das vias respiratórias…

Fontes:

-Cesar JA, Victora CG, Barros FC, et al. Impact of breastfeeding on admission for pneumonia during postneonatal period in Brazil: Nested case-controlled study. BMJ 318: 1316-1320, 1999.

-Bachrach VRG, Schwarz E, Bachrach LR. Breastfeeding and the risk of hospitalization for respiratory disease in infancy. Arch Pediatr Adolesc Med. 157: 237-243, 2003.

 

  • Oclusão da dentição alterada:

Crianças alimentadas com mamadeira têm mais do dobro de risco de ter mordida cruzada posterior.

Fonte:

Viggiano D. et al. Breast feeding, bottle feeding, and non-nutritive sucking; effects on occlusion in deciduous dentition. Arch Dis Child 89: 1121-1123, 2004.

 

  • Infecção por fórmula contaminada:

 Não é difícil que possa haver contaminação durante o processamento do leite de fórmula.

Fontes:

Weir E, Powdered infant formula and fatal infection with Enterobacter sakazakii. CMAJ 166, 2002.

-Van Acker J, de Smet F, Muyldermans G, Bougatef A. Naessens A, Lauwers S. Outbreak of necrotizing enterocolitis associated with Enterobacter sakazakii in powdered infant formulas. J Clin Microbiol 39: 293-297, 2001.

 

  • Deficiência de nutrientes:

 Neste caso, com fórmula infantil à base de soja.

Fonte:

Fattal-Valevski A, Kesler A, Seal B, Nitzan-Kaluski D, Rotstein M, Mestermen R, Tolendano-Alhadef H, Stolovitch C, Hoffman C. Globus O, Eshel G. Outbreak of Life-Threatening Thiamine Deficiency in Infants in Israel Caused by a Defective Soy-Based Formula. Pediatrics 115: 223-238, 2005.

 

  • Câncer infantil:

Os autores destes estudos mencionam um possível dano genético que predispõe tanto ao cáncer infantil como na vida adulta.

Fontes:

Dundaroz R, Aydin HA, Ulucan H, Baltac V, Denli M, Gokcay E. Preliminary study on DNA in non-breastfed infants. Ped Internat 44: 127-130, 2002.

-UK Childhood Cancer Investigators. Breastfeeding and Childhood Cancer. Br J Cancer 85: 1685-1694, 2001.

 

  • Doenças crônicas:

Maior risco de padecer celiaquia, diabete…

Fontes:

Ivarsson, A. et al. Breast-Feeding May Protect Against Celiac Disease Am J Clin Nutr 75:914-21, 2002.

-Sadauskaite-Kuehne V, Ludvigsson J, Padaiga Z, Jasinskiene E, Samuel U. Longer breastfeeding is an independent protective factor against development of type I diabetes mellitus in childhood. Diabet Metab Res Rev 20: 150-157, 2004.

 

  • Doença cardiovascular:

Colesterolemia, pressão alta…

Fontes:

Singhal A, Cole TJ, Lucas A. Early nutrition in preterm infants and later blood pressure: two cohorts after randomized trials. The Lancet 357: 413- 419, 200.

-Owen GC, Whipcup PH, Odoki JA, Cook DG. Infant feeding and blood cholesterol: a study in adolescents and systematic review. Pediatrics 110: 597- 608, 2002.

 

  • Obesidade:

Fontes:

Armstrong, J. et al. Breastfeeding and lowering the risk of childhood obesity. Lancet 359:2003-04, 2002.

-Von Kries R. Breastfeeding and obesity: cross sectional study. BMJ 319: 147-150, 1999.

 

  • Infecções gastrointestinais:

Vômitos e diarréias.

Fontes:

Beaudry M, Dufour R, Marcoux S. Relationship between infant feeding and infections during the first six months of life. J Pediatr 126: 191-197, 1995.

-Dewey KG, Heinig MJ, Nommsen-Rivers LA. Differences in morbidity between breast-fed and formula-fed infants. J Pediatr 126: 696-702, 1995.

 

  • Mortalidade:

Fontes:

Victora CG, Smith PG, Patrick J, et al. Infant feeding and deaths due to diarrhea: A case-controlled study. Amer J Epidemiol 129: 1032-1041, 1989.

-Chen A, Rogan WJ. Breastfeeding and the risk of postneonatal death in the United States. Pediatrics 113: 435-439, 2004.

 

  • Otite média e infecções óticas:

Fontes:

Duncan B, Ey J, Holberg CJ, Wright AL, Martines F, Taussig LM. Exclusive breastfeeding for at least 4 months protects against otitis media. Pediatrics 91: 867-872, 1993.

Duffy LC, Faden H, Wasielewski R, Wolf J, Krystofik D. Exclusive breastfeeding protects against bacterial colonization and day care exposure to otitis media. Pediatrics 100: E7, 1997.

 

  • Efeitos secundários por contaminantes ambientais:

Pela exposição aos bifenilos  policlorinados (BPC).

Fonte:

Vreugedenhill HJI, Van Zanten GA, Brocaar MP, Mulder PGH, Weisglas- Kuperus, N. Prenatal exposure to polychlorinated biphenols and breastfeeding: opposing effects on auditory P300 latencies in 9-year old Dutch children. Develop Med & Child Neurol 46: 398-405, 2004.

 

 

Para a mãe:

 

  • Sobrepeso:

Fonte:

Kac G, Benício MHDA, Velásquez-Meléndez G, Valente JG, Struchiner CJ. Breastfeeding and postpartum weight retention in a cohort of Brazilian women. Am J Clin Nutr 79: 487-493, 2004.

 

  • Câncer de mama:

Fonte:

Martin R, Middleton N, Gunnell D, Owen C, Smith G. Breast-Feeding and Cancer: The Boyd Orr Cohort and a Systematic Review With Meta- Analysis. Journal of the National Cancer Institute. 97: 1446-1457, 2005.

 

  • Câncer ovárico e de endométrio:

Fontes:

Chiaffarino F, Pelucchi C, Negri E, Parazzini F, Franceschi S, Talamini R, Montella M, Ramazzotti V, La Vecchia C. Breastfeeding and the risk of epithelial ovarian cancer in an Italian population. Gynecol Oncol. 98: 304- 308, 2005.

-Okamura C, Tsubono Y, Ito K, Niikura H, Takano T, Nagase S, Yoshinaga K, Terada Y, Murakami T, Sato S, Aoki D, Jobo T, Okamura K, Yaegashi N. Tohoku J Exp Med. Lactation and risk of endometrial cancer in Japan: a case-control study. 208: 109-15, 2006.

 

  • Osteoporose:

Fonte:

Karlsson MK, Ahlborg HG, Karlsson C, Maternity and mineral density. Acta Orthopaedica 76: 2-13, 2005.

 

  • Artrite reumatoide:

Fonte:

Karlson E W et al. Do breast-feeding and other reproductive factors influence future risk of rheumatoid arthritis?: Results from the Nurses Health Study. Arthiritis & Rheumatism 50: 3458-3467, 2004.

 

  • Diabete:

Fonte:

Stuebe AM, Rich-Edwards JW, Willett WC, Duration of lactation and incidence of type 2 diabetes. JAMA 294: 2601-2610, 2005.

 

  • Aumento do estresse e da ansiedade:

Maior nível elevado de cortisol (hormonio do estresse), assim como maior índice de depressão e estados de ânimo negativos.

Fonte:

Groer M W. Differences between exclusive breastfeeders, formula-feeders, and controls: a study of stress, mood and endocrine variables. Biol. Res Nurs. 7: 106- 117, 2005.


Uuuufa!!!

Quanta coisa negativa, não é?

Não quero assustar. Estamos nos referindo à maior predisposição, não à certeza. Mas, dá que pensar.

É que o leite de vaca, por mais modificado que esteja, é leite de vaca. É perfeito para o bezerro, mas não para o  bebê humano.

Com isso, quero dizer que o tipo de alimentação que escolhemos para o nosso bebê deve ser uma decisão meditada e consciente já que entra em jogo a saúde do nosso filho e a nossa também.

dr-sugiyama-font

 

Imagens desde Flickr: Daniel Lobo, Pedro Reyna, sidThomas COURTEMANCHE

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