Cordão umbilical enrolado no pescoço do feto é perigoso?

Você está gravidona, feliz da vida porque está tudo ok, os exames todos saíram bem, seu bebê parece vir com muita saúde e você está se sentindo melhor que nunca… até que vai a uma das últimas ultras e o seu obstetra faz cara de preocupação e te diz o seguinte: “Tem um probleminha: o bebê traz o cordão enrolado no pescoço. Não vai ser possível o parto vaginal. Mas não se preocupe que agendamos uma cesárea e pronto.”

Você estremece!

“Cordão enrolado?? Meus Deus, que perigo! Vamos agendar quanto antes essa cesárea!”

Aí é quando te vem à cabeça todos os casos de amigas e conhecidas que tiveram que marcar uma cesárea por causa da volta de cordão.

Logicamente, você não pensa duas vezes. Se seu obstetra te disse isso é porque deve ser mesmo necessário fazer uma cesariana.

 

Saiba que isso não é assim. O simples fato do bebê ter o cordão enrolado no pescoço não é motivo suficiente para não poder parir.

Esse dado por si só não significa nada.

 

Que o seu obstetra tenha visto que seu bebê tem 1, 2, 3 ou 5 voltas de cordão não é para se assustar.

 

Até um 40% dos fetos apresentam 1 ou mais voltas de cordão durante o nascimento. E não tem nada de mais. Pense: 40% são 4 de cada 10! Quase a metade! Ou seja, algo bem comum.

 

Os fetos dão muitas cambalhotas quando são ainda pequenos e têm espaço suficiente e é por isso que acabam se enrolando no próprio cordão umbilical.

Podem enrolar o cordão pelo pescoço, pés, braços e até mesmo fazer autênticos nós.

 

Não se preocupe que ele não vai se enforcar. Lembre que na barriga eles não respiram, senão que recebem o oxigênio necessário através da placenta. Pelo cordão umbilical, sim, é verdade, mas que este esteja enrolado não impede de levar o oxigênio suficiente.

 

O cordão umbilical costuma medir uns 50 cm mas existem cordões mais curtos ou extremamente longos, que permitem várias voltas ao redor do bebê sem afetar negativamente o mais mínimo.

 

Até mesmo ter ou não ter o cordão enrolado no pescoço é um dado que sobra dar como informação a uma grávida. Nenhum profissional deveria nem sequer mencionar isso já que esse dato por si só não tem nenhum valor preditivo.

 

Se, durante alguma ultra, o seu obstetra te dá essa informação, já é para desconfiar de se realmente é um bom profissional ou se, pelo contrário, tem um interesse pessoal detrás: seja econômico ou por conveniência de tempo da equipe de saúde, já que uma cesárea é mais cara e mais rápida que um parto.

 

A volta de cordão umbilical costuma ser utilizada como justificação para agendar ou praticar uma cesárea. Mas não é motivo suficiente.

 

Sei de casos de grávidas de 28 semanas (lembre que a média do final da gestação está em 40 semanas) que tiveram que agendar uma cesariana já com tanta antecedência porque durante a ultra o profissional disse que não podia ter um parto vaginal por causa da volta de cordão.

Gente, isso é absurdo!!

 

 

Quando uma volta de cordão pode chegar a afetar o bem-estar do feto?

O que pode ser prejudicial não é apertar o pescoço do feto, senão que o estiramento do cordão.

Se o cordão se estirar demais, pode chegar a comprometer o fornecimento de oxigênio.

 

Mas, calma, vou explicar:

 

Durante as contrações, o bebê é empurrado para baixo e como, normalmente, o cordão é suficientemente longo, ainda que esteja enrolado, não se estira e nada acontece.

Se um cordão se enrola muito, acaba ficando curto e pode ser que com as contrações se estire demais até chegar ao ponto de diminuir o fluxo sanguíneo.

 

Mas não se desespere! Não afeta negativamente de repente. De um momento a outro. Senão que é algo gradual e normalmente transitório.

 

As contrações costumam começar muito pouco a pouco, suavemente. O cordão não vai ser puxado com força de repente. Ainda por cima, o feto tem mecanismos compensatórios que fazem que possa se adaptar a essa situação durante um tempo. E, para mais tranquilidade, essa redução de oxigênio é transitória, já que dura o que dura uma contração (entre 45 e 60 segundos).

 

Na natureza está tudo tão pensado que o cordão umbilical é realmente uma envoltura de proteção dos vasos que levam o oxigênio e nutrientes e trazem os resíduos para serem eliminados.

 

Está formado por 2 artérias e 1 veia que estão envoltos por uma espécie de gelatina que protege das compressões, já que o próprio bebê pode apertar o cordão agarrando com a mão ou mesmo se deitar encima.

 

Existe outro sistema de proteção, desta vez contra estiramentos. Por isso, o cordão umbilical está enrolado sobre si mesmo de tal forma que se assemelha a um fio de telefone. Dessa maneira, permite ser bastante estirado sem que afete à passagem de sangue de um lado a outro.

Saiba mais sobre cordão umbilical neste post.

 

Está vendo como é difícil que a volta de cordão chegue a comprometer o bem-estar do seu bebê?

 

 

E o que acontece quando sai a cabeça e tem o cordão enrolado no pescoço?

Simples. Há duas opções:

 

  1. Que o cordão esteja folgadinho: nesse caso pode-se retirar do pescoço como se fosse tirar um colar. Ou mesmo, às vezes, nem precisa fazer nada porque está tão folgado que nem atrapalha a saída do bebê.
  2. Que o cordão esteja muito apertado: se não der para tirar como um colar é tão fácil como clampear em 2 pontos e cortar no meio dos clamps. Não tem que correr, nem se desesperar nem nada. Assim de simples.

 

 

Como se pode saber se o cordão está sendo estirado demais durante as contrações por ser muito curto ou estar muito enrolado?

Isso só se pode saber através da monitoração cardíaca fetal. O registro da frequência cardíaca do feto pode dar muita informação.

Podem existir momentos transitórios onde a frequência cardíaca do feto diminui até um certo ponto e se recupera rapidamente sem que isso seja motivo direto para praticar uma cesárea.

E, se isso se repetir consecutivamente há outra prova para sair de dúvidas sobre o bem-estar do bebê na barriga: o pH de sangue fetal, que resulta em arranhar levemente a cabeça do feto para conseguir micro-gotas de sangue e analisar posteriormente para saber mais fielmente se existe ou não sofrimento fetal.

Em caso de suspeita de sofrimento sugerido pelo resultado do pH, aí sim seria um verdadeiro motivo para extrair o feto rapidamente com uma operação cesariana.

 

E você estará pensando:

E faz falta passar por tudo isso? Será que não é mais fácil agendar uma cesárea e assim garantir que o bebê não vai sofrer?

 

O feto está capacitado para passar as contrações e é até mesmo necessário que eles passem por isso para que estejam preparados para enfrentar as mudanças que implicam passar ao mundo exterior. Lembre que na natureza nada é por acaso. Tudo tem um porquê.

 

E não esqueça deste dado importantíssimo: uma cesárea tem entre 6 e 8 vezes mais risco que um parto vaginal, tanto para a mãe como para o bebê. E ainda por cima implica muito mais que riscos físicos: veja este post sobre as consequências de nascer de uma forma determinada.

 

Cesárea? Sim, quando é necessária. E volta de cordão por si só não é motivo suficiente para agendar uma cesárea.

 

dr-sugiyama-font

Conta para a gente: conhece algum caso de cesárea agendada só por causa de visualização de volta de cordão na ultra? Aconteceu com você?

 

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